
Durante muitos anos, assim como a maioria dos dentistas, eu acreditava que o bruxismo infantil deveria ser tratado focando apenas nos dentes.
Mas a prática clínica me mostrou algo diferente.
Hoje, antes de pensar em uma placa ou em qualquer tratamento paliativo, eu procuro responder uma pergunta muito mais importante:
Por que essa criança está rangendo os dentes?
Neste artigo, compartilho dois casos clínicos que mudaram completamente minha forma de diagnosticar e tratar o bruxismo infantil.
Uma paciente chegou ao consultório com quase seis anos de idade.
A mãe estava preocupada porque os dentes permanentes já começavam a nascer e não havia espaço suficiente no arco dentário.
Até aí, poderia parecer apenas um caso ortodôntico.
Mas durante a anamnese surgiram informações que mudaram completamente o diagnóstico.
A criança:
Nesse momento surgiu a pergunta que todo dentista deveria fazer:
Será que a falta de espaço era realmente o problema ou apenas uma consequência?
É muito comum iniciarmos o tratamento pela consequência.
Expandimos os arcos.
Criamos espaço.
Pensamos em aparelhos.
Mas esquecemos de investigar por que aquela face não se desenvolveu adequadamente.
Quando a criança apresenta obstrução das vias aéreas superiores, a passagem do ar é comprometida.
Sem uma respiração adequada, maxila e mandíbula deixam de receber os estímulos necessários para um crescimento fisiológico.
O resultado aparece no consultório como:
Ou seja, muitas vezes o problema nunca esteve apenas nos dentes.
Ao invés de tratar somente a falta de espaço, optamos por tratar a origem do problema.
O protocolo envolveu a correção da função respiratória, da postura da língua e do desenvolvimento ósseo.
O resultado foi muito além do alinhamento dentário.
A paciente passou a dormir melhor.
O bruxismo reduziu.
Os dentes permanentes encontraram espaço para erupcionar.
E, muito provavelmente, ela não precisará de aparelho fixo futuramente.
Tudo isso porque tratamos a causa, e não apenas o sintoma.
Nenhum caso me ensinou tanto quanto esse.
Minha filha tinha apenas cinco anos quando comecei a perceber alguns sinais durante o sono.
Ela apresentava:
Como ortodontista, imediatamente pensei:
Existe algo comprometendo a respiração dessa criança.
Solicitei uma teleradiografia.
O exame mostrou uma adenoide hipertrofiada ocupando aproximadamente 80% da via aérea.
Posteriormente, o diagnóstico foi confirmado pelo otorrinolaringologista.
Inicialmente iniciamos o protocolo de ortopedia funcional dos maxilares.
Obtivemos melhora, mas naquele caso específico a obstrução era severa.
Foi necessária a cirurgia para remoção da adenoide.
Após a cirurgia, retomamos o protocolo ortodôntico para ampliar as vias aéreas e favorecer o desenvolvimento adequado da face.
Esse é um conceito extremamente importante.
A cirurgia resolveu a obstrução.
Mas a ortodontia foi essencial para devolver função e estabilidade ao sistema.
Hoje minha filha:
Esses resultados reforçam algo que procuro ensinar em todas as minhas aulas.
O bruxismo infantil raramente é o problema principal.
Na maioria das vezes, ele é apenas um sinal de que existe uma alteração funcional que precisa ser identificada.
Esses dois casos possuem características diferentes.
Mas ambos mostram a importância de desenvolver um olhar clínico mais amplo.
Quando aprendemos a investigar respiração, postura da língua, crescimento facial e vias aéreas, passamos a compreender o bruxismo infantil de forma completamente diferente.
Deixamos de tratar apenas o ranger dos dentes.
Passamos a tratar crianças.
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