Durante muitos anos, assim como a maioria dos dentistas, eu acreditava que o bruxismo infantil deveria ser tratado focando apenas nos dentes.

Mas a prática clínica me mostrou algo diferente.

Hoje, antes de pensar em uma placa ou em qualquer tratamento paliativo, eu procuro responder uma pergunta muito mais importante:

Por que essa criança está rangendo os dentes?

Neste artigo, compartilho dois casos clínicos que mudaram completamente minha forma de diagnosticar e tratar o bruxismo infantil.


Caso clínico 1: a queixa principal não era o bruxismo

Uma paciente chegou ao consultório com quase seis anos de idade.

A mãe estava preocupada porque os dentes permanentes já começavam a nascer e não havia espaço suficiente no arco dentário.

Até aí, poderia parecer apenas um caso ortodôntico.

Mas durante a anamnese surgiram informações que mudaram completamente o diagnóstico.

A criança:

  • Rangia os dentes todas as noites;
  • Respirava pela boca;
  • Apresentava sono agitado;
  • Possuía postura inadequada da língua;
  • Tinha arcos dentários reduzidos.

Nesse momento surgiu a pergunta que todo dentista deveria fazer:

Será que a falta de espaço era realmente o problema ou apenas uma consequência?


O erro mais comum no diagnóstico

É muito comum iniciarmos o tratamento pela consequência.

Expandimos os arcos.

Criamos espaço.

Pensamos em aparelhos.

Mas esquecemos de investigar por que aquela face não se desenvolveu adequadamente.

Quando a criança apresenta obstrução das vias aéreas superiores, a passagem do ar é comprometida.

Sem uma respiração adequada, maxila e mandíbula deixam de receber os estímulos necessários para um crescimento fisiológico.

O resultado aparece no consultório como:

  • Falta de espaço;
  • Arcos estreitos;
  • Bruxismo;
  • Respiração bucal;
  • Sono agitado.

Ou seja, muitas vezes o problema nunca esteve apenas nos dentes.


O tratamento mudou completamente

Ao invés de tratar somente a falta de espaço, optamos por tratar a origem do problema.

O protocolo envolveu a correção da função respiratória, da postura da língua e do desenvolvimento ósseo.

O resultado foi muito além do alinhamento dentário.

A paciente passou a dormir melhor.

O bruxismo reduziu.

Os dentes permanentes encontraram espaço para erupcionar.

E, muito provavelmente, ela não precisará de aparelho fixo futuramente.

Tudo isso porque tratamos a causa, e não apenas o sintoma.


Caso clínico 2: quando a paciente era minha própria filha

Nenhum caso me ensinou tanto quanto esse.

Minha filha tinha apenas cinco anos quando comecei a perceber alguns sinais durante o sono.

Ela apresentava:

  • Bruxismo;
  • Terror noturno;
  • Roncos;
  • Enurese noturna;
  • Respiração bucal;
  • Baba excessiva no travesseiro.

Como ortodontista, imediatamente pensei:

Existe algo comprometendo a respiração dessa criança.

Solicitei uma teleradiografia.

O exame mostrou uma adenoide hipertrofiada ocupando aproximadamente 80% da via aérea.

Posteriormente, o diagnóstico foi confirmado pelo otorrinolaringologista.


Nem sempre um único tratamento resolve

Inicialmente iniciamos o protocolo de ortopedia funcional dos maxilares.

Obtivemos melhora, mas naquele caso específico a obstrução era severa.

Foi necessária a cirurgia para remoção da adenoide.

Após a cirurgia, retomamos o protocolo ortodôntico para ampliar as vias aéreas e favorecer o desenvolvimento adequado da face.

Esse é um conceito extremamente importante.

A cirurgia resolveu a obstrução.

Mas a ortodontia foi essencial para devolver função e estabilidade ao sistema.


O resultado foi muito além do bruxismo

Hoje minha filha:

  • Dorme de boca fechada;
  • Não apresenta mais bruxismo;
  • Não ronca;
  • Não possui terror noturno;
  • Não apresenta enurese;
  • Descansa adequadamente.

Esses resultados reforçam algo que procuro ensinar em todas as minhas aulas.

O bruxismo infantil raramente é o problema principal.

Na maioria das vezes, ele é apenas um sinal de que existe uma alteração funcional que precisa ser identificada.


 

 

 

O que esses casos ensinam ao cirurgião-dentista?

Esses dois casos possuem características diferentes.

Mas ambos mostram a importância de desenvolver um olhar clínico mais amplo.

Quando aprendemos a investigar respiração, postura da língua, crescimento facial e vias aéreas, passamos a compreender o bruxismo infantil de forma completamente diferente.

Deixamos de tratar apenas o ranger dos dentes.

Passamos a tratar crianças.


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